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Morango da discórdia


Mesmerizado com tanta repercussão, me pergunto por que o morango do amor caiu nas graças do algoritmo das redes, e não a uva da indiferença, a seriguela da paixão ou o maracujá da raiva.

O caqui da inveja, por exemplo, também tem lá o seu apelo estético-gastronômico, assim como a banana do enfado e o abacate do ódio, a melancia da preguiça e o murici do descontentamento.

E o que dizer da goiaba da maledicência e do abacaxi do tesão?

Nenhum houve por bem granjear meia dúzia de likes nestes tempos de uma febril imediaticidade internética.

Nenhum logrou produzir fotos sob o mesmo ângulo atraente de um morango suavemente seccionado em diagonal, suas camadas revelando-se como um segredo de alcova tão bem guardado, as sementinhas pontilhando aqui e ali como sardas nas maçãs do rosto.

Mais importante: nenhum manipula a audiência com a mesma habilidade e soft power de um morango.

Mesmo a pitomba, vejam só, uma fruta tão simpática na sua miudeza e sabor, tão adorável e discreta, tão simples e pobremente esférica. De ninguém pede nada, a ninguém exige o que quer que seja, apenas que a descasquemos com paciência.

Gosto de pitomba, tenho de admitir, e gosto mais ainda de gostar de pitomba.

Gosto de como soaria “pitomba do amor”, mais telúrico do que com o morango, convenhamos.

Gosto de imaginar a pitomba na sua versão açucarada, polvilhada de sabe-se lá que temperos, mas também na sua qualidade única, sem ornatos gourmet nem adornos gustativos.

Apenas ela, redonda e lisa, deslizante e traiçoeira, com sua casca grossa que reveste um interior de carnadura delicada, pele fina recobrindo o caroço anguloso que, ao menor sinal de distração, enfia-se goela abaixo, instalando-se mansamente no estômago, para desespero de pais e mães.

Eis a pitomba, então, pequena, malcriada e imprevisível, mais afeita a sentimentos como a intempestividade etc.

Ao contrário do morango, de natureza servil e doméstica, pronto a emprestar suas qualidades aristocráticas a quem lhe ofereça mais.

Das frutas da árvore divina, sem dúvida a mais comercial, a mais venal, a tudo e a todos ofertando uma suposta essência (dos recheados aos dindins e picolés), a tudo e a todos enganando desde crianças, sugerindo um miolo adoçado quando, em verdade, não passa de mais uma matéria cítrica.

Não surpreende que agora tenha novamente roubado a cena, já que incansavelmente à procura de holofotes, posando para mil e um cliques em fotos de reportagem, estampando notícias como um astro de cinema, vendendo gato por lebre, esgotando-se nas prateleiras e fazendo o consumidor mais abestalhado correr ao mercado para pagar 100 reais numa bandeja de frutinhas. Mas não importa. O dia da pitomba há de chegar, com ou sem amor.

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