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Sobre aquele assunto

Bom, nota explicativa. O conto que segue abaixo integra um livro que se chama... Antes, chamava-se Baú sem fundo, e foi inscrito em um edital assim, com essa graça desgraciosa, mas passou a ter outro nome mais bonito e menos sugestivo de coisa dispendiosa após leitura de um camarada muito querido. Logo, acatei. O livro foi escrito quando tinha entre 24 e 25 anos. Hoje, tenho 30. Portanto, muito do que vejo se tornou estranho, claro, como aquele bilhete de cinema de 2004 que faz lembrar um namoro já de há muito perdido no tempo. Pra finalizar, digo que são 20 contos, alguns bem curtos, outros nem tanto. Pretendo publicar boa parte deles aqui, um por semana. É isso.


BAÚ SEM FUNDO (2004)

Nunca tinha visto ou lido tanta coisa a respeito de nada, repito, tanta coisa a respeito de nada, de coisa alguma. É uma besteira, disse pela quinta vez e desligou a televisão.

Tudo bem, hoje acordei atacada. Pode rir, estou atacada mesmo. Meu Deus, como as coisas costumam acontecer, eu não sei dizer. Mas começam e, quando vemos, já estão lá. Não tem mais jeito. Quero suco de laranja e bolacha no café da manhã.

Sabem de uma? Comecei a escrever tem dois dias. Não saio de casa, apenas escrevo. É uma novela, mas antes de explicar devo dizer: estou mentindo.

Saí ontem. Quase fui assaltada na esquina. O homem aproximou-se e perguntou onde ficava a avenida Castelo Branco, eu disse do outro lado da praça Dom Pedro. Ele então ficou me olhando e olhando. Depois pediu, assim mesmo, “Me dá o teu celular!” Eu disse “Não dou” e corri. Curioso, ele não veio atrás de mim, ficou parado, acho que pensando, sei lá, refletindo sobre a minha reação. Talvez nenhuma mulher jamais tenha tentado correr até hoje quando encurralada por ele. Não apenas tentei, como consegui correr e escapar.

Cheguei em casa suada e esbaforida. Minha mãe olhou pra mim, disse qualquer coisa sobre suco de laranja e geladeira, virou-se e foi dormir. Eu fiquei no corredor, encurralada e surpresa: mamãe não falava comigo há um mês.

Mentira: não falava há um mês e dez dias. Por uma razão estúpida: terminei um namoro de oito meses com um rapaz, digamos, bem de vida. Ela apostou nele, queria ver-nos assim, casados e com filhos morando num dos novos condomínios da Região Metropolitana da cidade. Daí ela nos visitaria nos fins de semana. E nos feriados, acho que a dona Marta também faria isso, nos visitaria nos feriados. É típico.

A novela é sobre um jovem que quer, a todo custo, viajar para a Inglaterra, aperfeiçoar o seu inglês e também conhecer uma garota bacana, quem sabe se casar com ela. Ainda estou pensando sobre isso, se ele, o Marcos, tem mesmo essa vontade, casar com ela, uma estrangeira. Tenho de conversar seriamente com ele. Posso convidá-lo pra tomar uma cerveja depois da aula? Acho que sim.

O Marcos não tem namorada. É um estudante de Química solteirão. Não fica com ninguém, o coitado. É um pouco parecido comigo.

É falso: Marcos, agora sei, não é solteirão. Nem eu mesma sou. Que burrice a minha supor que um jovem estudante, jovem e bonito, mas tímido, seja um encalhado, um iceberg. De jeito nenhum. É só que ele não sai muito de casa, não freqüenta as festinhas da moda, não usa as roupinhas da moda, não lê os livrinhos da moda. Até que comprou um pra sobrinha, o terceiro do Harry Potter, mas nem chegou a ler.

Acho que estou mentindo novamente. O Marcos leu algumas páginas, sim, cerca de vinte ou trinta. Pra falar a verdade, chegou até a metade do livro num único fôlego, mas como tinha de dar ele de presente pra menina, então com doze anos, não teve outra: entregou quase sem querer. A Manoela, tão boazinha, prometeu que lhe emprestaria tão logo terminasse a leitura. Antes dele, porém, tinha a Júlia, amiguinha da escola. Ela, que tinha entrado na fila bem antes de Marcos, adorava o Harry mas seus pais não tinham tanto dinheiro assim pra gastar com livros que não fossem os de geografia, matemática e português.

Não sei quantas páginas vou agüentar escrever. Estive pensando em cem, cento e cinqüenta. Isso ainda é uma novela? Acho que talvez não possam me responder. Nem sei se quero mesmo saber.

O Marcos! Vou perguntar pra ele. Melhor, vou inventar que o Marcos sabe e faz coisas que eu não sei nem faço. O Marcos é um cara legal, tímido mas interessante.

Mentira: Marcos é misterioso. Na verdade tem um segredinho muito bem guardado: na infância, gostou de um garoto. Mais não sei, nem adianta perguntar.

Mentira de novo. Sei de muita coisa, menos sobre a vida do que sobre Marcos. De qualquer forma, entendo um pouco de mim e isso é suficiente. Sei de algumas coisas, geralmente bastante práticas – é que estou aprendendo a ser prática.

Vou dar um exemplo de algo que eu sei de cor e que pode ser facilmente classificado de “coisa prática”: quando chegou a hora de acabar. O Maurício, meu ex, sabe disso melhor que ninguém.

Nunca menti tanto na vida: ninguém sabe disso melhor que eu mesma.

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